Você sabia que o cigarro não afeta apenas os pulmões? Apesar de a associação mais imediata ser com problemas respiratórios, o tabagismo é uma das principais causas de doenças cardiovasculares, que incluem infarto, AVC e hipertensão. E o alerta vale também para quem nunca tragou um cigarro, mas convive com a fumaça de perto.
Neste 29 de agosto, quando se celebra o Dia Nacional de Combate ao Fumo, a CLINC traz uma reflexão completa sobre os impactos do tabagismo no coração, nos vasos e nos pulmões, incluindo as novas formas de consumo de nicotina que têm preocupado especialistas em todo o Brasil.
O que o cigarro faz com o seu corpo?
O cigarro libera mais de 4.700 substâncias tóxicas quando queimado. Dessas, pelo menos 70 são comprovadamente cancerígenas. Quando você dá uma tragada, essas substâncias entram no pulmão, passam para a corrente sanguínea e atingem praticamente todos os órgãos do corpo.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o tabagismo é responsável por cerca de 90% das mortes por câncer de pulmão, um número que por si só demonstra a gravidade do problema. Mas os danos não param por aí.
Coração e vasos: os alvos invisíveis
O cigarro afeta o sistema cardiovascular de várias formas:
- Lesão do endotélio — a parede interna dos vasos sanguíneos (chamada de endotélio) é danificada pelas toxinas, facilitando o acúmulo de gordura e a formação de placas.
- Aceleração da aterosclerose — as placas de gordura nas artérias crescem mais rápido, estreitando os vasos e dificultando a passagem do sangue.
- Aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca — cada cigarro eleva imediatamente esses parâmetros, sobrecarregando o coração.
- Maior risco de coágulos — o tabaco torna o sangue mais propenso à coagulação, aumentando o risco de trombose, infarto e AVC.
O resultado é que fumantes têm um risco significativamente maior de desenvolver doenças cardiovasculares, que continuam sendo a principal causa de morte no Brasil e no mundo.
Quais doenças o tabagismo causa?
A relação entre cigarro e doenças é ampla e documentada:
- Infarto do miocárdio — obstrução das artérias que irrigam o coração
- AVC (Acidente Vascular Cerebral) — entupimento ou rompimento de vasos no cérebro
- Doença arterial periférica — comprometimento da circulação nas pernas
- Aneurisma de aorta — dilatação perigosa da principal artéria do corpo
- Hipertensão arterial — pressão alta crônica
- Câncer de pulmão — o tabagismo é o principal fator de risco
- DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica) — perda progressiva da função pulmonar
Fumante passivo: a fumaça que você não escolheu
A exposição à fumaça do cigarro de outras pessoas, o chamado tabagismo passivo, também traz riscos reais. Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças pré-existentes são os grupos mais vulneráveis.
Quem convive com fumantes em ambientes fechados tem risco aumentado de desenvolver doenças cardiovasculares e respiratórias, mesmo sem nunca ter fumado. Não existe nível seguro de exposição à fumaça do tabaco.
Além do cigarro: as novas formas de tabagismo são mais perigosas
É cada vez mais comum vermos jovens e adolescentes usando cigarros eletrônicos (vapes, pods), narguilé e até sachês de nicotina (conhecidos como pouches ou snus). A falsa ideia de que essas formas seriam “mais seguras” é um dos maiores equívocos na saúde pública hoje.
O pneumologista Thiago Fagundes, especialista vinculado à CLINC e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), alerta: “A nicotina tem o que chamamos de efeito dose-resposta. Isso quer dizer que quanto maior a dose que eu experimento, maior será o vício.”
O especialista explica que as novas formas de consumo, como balas de nicotina, sachês e cigarros eletrônicos, frequentemente entregam concentrações mais altas de nicotina do que o cigarro convencional. No caso dos vapes, as moléculas de nicotina são menores, penetrando mais no tecido pulmonar e sendo absorvidas mais rapidamente pela corrente sanguínea.
Os riscos dessas novas formas incluem:
- Danos cardiovasculares: aumento da pressão arterial e lesão da parede interna dos vasos
- Aceleração da aterosclerose: formação mais rápida de placas nas artérias
- Presença de metais pesados no sangue: provenientes das baterias dos dispositivos eletrônicos
- Dependência mais intensa: especialmente em adolescentes, cujo sistema nervoso ainda está em formação
Segundo o Ministério da Saúde, o uso de cigarro eletrônico entre adultos brasileiros atingiu 2,6% em 2024, o maior índice desde o início da série histórica. Entre os adolescentes, a prevalência é ainda mais alarmante.
Tabagismo no Brasil: um cenário que voltou a crescer
Após quase duas décadas de queda contínua, o número de fumantes no Brasil voltou a crescer. De acordo com dados recentes do Ministério da Saúde, a proporção de fumantes subiu de 9,3% para aproximadamente 11,7%, um aumento de cerca de 25% em apenas um ano.
O custo desse cenário é altíssimo: o tabagismo gera ao Brasil um gasto anual estimado em R$ 153,5 bilhões com problemas de saúde, valor muito superior aos impostos arrecadados com a venda de produtos do tabaco.
Agosto Branco: por que o rastreamento do câncer de pulmão importa
Agosto também é marcado pela campanha do Agosto Branco, que alerta sobre a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de pulmão. Reforçamos que tosse e falta de ar persistentes, fadiga e perda de peso sem causa aparente podem ser sinais de alerta, mas o câncer de pulmão muitas vezes é descoberto apenas em estágios avançados.
Para fumantes e ex-fumantes acima de 50 anos com histórico significativo de tabagismo, defendemos a ampliação do rastreamento com tomografia de baixa radiação, um exame capaz de identificar lesões iniciais antes do surgimento de sintomas.
O que acontece com o corpo quando você para de fumar?
A boa notícia é que o corpo começa a se recuperar quase imediatamente após a última tragada:
- 20 minutos após: a pressão arterial e a frequência cardíaca começam a normalizar
- 24 horas: o risco de infarto já começa a diminuir
- 48 horas: o olfato e o paladar melhoram
- 2 a 12 semanas: a circulação sanguínea melhora e a função pulmonar aumenta
- 1 ano: o risco de doença cardiovascular cai pela metade
- 5 anos: o risco de AVC se aproxima do de um não-fumante
Esses dados mostram que nunca é tarde para parar. Os benefícios são progressivos e começam em minutos.
Como parar de fumar: orientações práticas
Parar de fumar não precisa ser uma decisão solitária. Aqui na CLINC temos um corpo clínico que é referência em cessação do tabagismo na Paraíba:
“Parar de fumar é treino. Se tentou e não deu certo, é preciso entender o que aconteceu. A gente vai treinando o paciente. Ele vai se conhecendo. O tratamento médico farmacológico auxilia nisso, mas não é mágico. É trabalhar a questão do querer, do esforço e se conhecer.”
Os primeiros passos incluem:
- Tomar a decisão: reconhecer que o cigarro é um problema de saúde, não um hábito inofensivo
- Procurar ajuda profissional: o tratamento pode envolver medicação, psicoterapia e mudança de hábitos
- Não ter medo de recaídas: elas fazem parte do processo; o importante é entender os gatilhos e tentar novamente
- Investigar a saúde cardiovascular e respiratória: especialmente para fumantes de longa data ou pessoas com fatores de risco associados (hipertensão, diabetes, histórico familiar)
É fundamental compreender que a dependência da nicotina é uma doença crônica, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e classificada na CID-11. Não se trata de falta de força de vontade, trata-se de uma condição que tem tratamento.
A CLINC e o cuidado com quem deseja parar de fumar
Se você fuma, já parou ou convive com fumantes, uma avaliação cardiovascular e respiratória pode identificar alterações precoces. A CLINC é referência em cardiologia na Paraíba e oferece acompanhamento preventivo com equipe especializada e interdisciplinar, incluindo atuações no diagnóstico, tratamento e cessação do tabagismo.
Parar de fumar é uma decisão importante. Buscar acompanhamento profissional pode tornar esse processo mais seguro e possível.
Por Thiago Fagundes, Pneumologista na CLINC
CRM-PB 11455 (RQE 5485)